Festival de Tiradentes: Lembro Mais dos Corvos

O longa-metragem dirigido por Gustavo Vinagre foi exibido na Mostra Aurora em Tiradentes e angariou para a corroteirista e atriz (e personagem) Julia Katharine o prêmio Helena Ignez, dedicado ao destaque feminino entre longas e curtas da edição. Trata-se de um documentário a respeito da própria Julia, mulher trans, que é filmada em sua própria casa (com Cris Lyra na direção de fotografia), expondo através do monólogo (com pouquíssimas intervenções do diretor) passagens da sua vida e perspectivas a respeito da representação da mulher trans – que passam, de maneira metalinguística, por escolhas adotadas pelo próprio filme.

Julia é amiga de Gustavo e já trabalhou como atriz em curtas que ele dirigiu (Os Cuidados que se tem com o Cuidado que os Outros Devem ter Consigo Mesmos, 2016; Filme-Catástrofe, 2017). Essa relação está dada na imagem e também na narrativa, na maneira como Julia se dirige sempre a Gustavo, que é presença permanente, mesmo que fora de quadro, e mesmo que em silêncio. É para ele que as suas experiências são narradas; é Gustavo, a todo o momento, o seu interlocutor: o que coloca a nós, o público, na posição de testemunha. Ciente de que sua conversa está sendo observada, Julia se apresenta muitas vezes como constrangida, questiona se isso ou aquilo deveria ter sido dito, se essa ou aquela questão é pertinente; e, em outras ocasiões, mostra-se preocupada a respeito do choque ou desconforto que determinadas histórias podem causar em nós, tentando sempre transmitir leveza, na busca por amenizar o impacto de revelações que, de fato, são carregadas, uma vez que atravessam a sua vivência como mulher trans. Essa cumplicidade entre atriz e diretor, e esse lugar de intimidade ocupado por Julia em sua casa (reforçado por movimentos de câmera que se mostram espontâneos) nos colocam na posição de invasores, mas também nos invadem, nos impelindo de fato (e finalmente) a olhar para aquela personagem, que, por ser trans e mulher, tem sua alteridade invisibilizada.

Todas essas escolhas são conscientes do ponto de vista fílmico. A montagem acolhe as dúvidas da narrativa de Julia, ao invés de censurá-las, e, em um movimento ainda mais ousado, insere escolhas da direção de Gustavo que posteriormente receberão críticas – inserindo, ainda, as próprias críticas. Julia, que tem ascendência japonesa, em dado momento se veste como gueixa: não escondendo seu desconforto, pergunta a Gustavo quanto ele gastou para comprar aquela roupa. E mais adiante ela relembra essa passagem, deixando claro que não gostou da filmagem e que se sentiu fetichizada. Menciona ainda as perguntas sobre sexo feitas ao longo do filme: perguntas que, segundo ela, contribuiriam para o reforço de certos estigmas sobre a mulher trans. Esse movimento consciente da narrativa documental, em que se erra e depois se aponta o próprio erro, é eficiente em duas perspectivas: primeiro porque enuncia e nos obriga a encarar nossos preconceitos internalizados (em especial se tratando de um público majoritariamente branco e cis, do qual faço parte), segundo porque nos apresenta uma personagem multifacetada, dada a se conhecer porque extravasa um discurso fílmico que, por ser transparente, chama pouco a atenção para si. Direção de fotografia e montagem, já mencionadas, e também a direção de arte (que apenas contribui para o ambiente íntimo da casa apresentada), colocam-se humildemente a serviço da exposição de uma personagem.

Personagem-real, personagem-invisível, Julia aqui se expõe. A exposição é urgente porque abrange outras mulheres invisíveis que estão ali representadas. O movimento, por sua vez, é corajoso, uma vez que Julia é uma pessoa, uma individualidade, ainda que representando outras. Colocar-se frente a uma câmera, em sua própria casa, e de tal maneira mostrar-se, é expressão estética, mas é também – principalmente – exercício político. Tal protagonismo, lembrando que Julia Katharine ainda coassina o roteiro, atravessa a direção e demais esferas de realização – nesse sentido surge o prêmio Helena Ignez, como expressão singela do reconhecimento de quem nunca ocupou esse lugar.

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