Festival de Tiradentes: Foco Minas 2

No ano de 2018, a 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes apostou nas tramas do real. À primeira instância, poderíamos pensar no realismo naturalista ou em narrativas que pouco manipulassem a realidade, contudo, o que o festival propõe é justamente ser uma vitrine para a pluralidade do real. Esse ponto é ainda mais perceptível nas mostras de curta-metragem, pela sua variedade e capacidade de síntese. Neste ano, a Mostra Foco Minas e a Mostra Regional proporcionaram ao espectador assuntos pertinentes à sociedade e narrativas surpreendentes, enriquecendo a cinematografia brasileira.

OS QUE SE VÃO, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti

(EXPERIMENTAL, 24’, MG, 2018)

Os que se vão é apresentado ao público como uma narrativa que se utiliza da abordagem experimental para criar poesias audiovisuais a respeito de encontros e desencontros entre a cidade e seus habitantes. A cidade é representada por planos fixos e ambientada através de uma variedade de sons, enquanto seus habitantes atravessam voluvelmente pelos planos. Desde o contar de um causo até um reencontro apaixonado, é a cidade quem observa e abriga as fugas, aventuras e deslumbres que ninguém mais vê. O esmero técnico da obra, tanto sonoro como fotográfico, embala o filme em sentimento de nostalgia. Intimamente, o afastamento dos desejos nos abraça.

A BRINCADEIRA, de Rafael Conde

(EXPERIMENTAL, 16’, MG, 2018)

O novo curta-metragem de Rafael Conde é um convite ao espectador para presenciar o atravessamento entre o teatro e o cinema. Inspirado no conto homônimo de Tchekhov, o filme apresenta um casal em seu cotidiano, envolto por lençóis brancos que impossibilitam a localização temporal e espacial, chamando para dentro da cena uma camada de irrealidade. Durante a obra, o texto de Tchekhov é recitado em off e suas palavras brincam com os olhares cruzados do casal. Também participam desse jogo planos alheios à cena, que poderiam muito bem fazer parte de outra narrativa, mas que, presentes nessa brincadeira, energizam a interação dos personagens, bem como o texto narrado. Mais uma vez, é a montagem um dos grandes trunfos que especificam o cinema.

 

TODAS AS CASAS MENOS A MINHA, de Julia Baumfeld

(DOCUMENTÁRIO, 20’, MG, 2017)

Uma série de vídeos de arquivo pessoal, costurada pelo áudio de uma consulta sobre mapa astral, revela um ensaio profundo sobre a vida da protagonista, sua relação consigo mesma e com os demais membros de sua família. Com extrema coragem, o filme estabelece diálogo entre imagem e som, alternando, de acordo com a cena e com o tema, sons diretos do vídeo e o áudio em off da consulta (com total silenciamento do som direto), significando que a protagonista finalmente tem a chance de falar e de se ressaltar à sua família. É uma narrativa pessoal instigante, que causa empatia em quem atentamente a vê.

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