Festival de Tiradentes: Foco Minas 1

 

No ano de 2018, a 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes apostou nas tramas do real. À primeira instância, poderíamos pensar no realismo naturalista ou em narrativas que pouco manipulassem a realidade, contudo, o que o festival propõe é justamente ser uma vitrine para a pluralidade do real. Esse ponto é ainda mais perceptível nas mostras de curta-metragem, pela sua variedade e capacidade de síntese. Neste ano, a Mostra Foco Minas e a Mostra Regional proporcionaram ao espectador assuntos pertinentes à sociedade e narrativas surpreendentes, enriquecendo a cinematografia brasileira.

 

MOSTRA FOCO MINAS – 1

 

NADA, de Gabriel Martins

(FICÇÃO, 28’, MG, 2017)

O filme Nada, de Gabriel Martins, já está com uma longa carreira entre festivais nacionais e internacionais. Em Tiradentes ele abre a Mostra Foco Minas. O curta-metragem retrata a mudança para a vida adulta de Bia, aspirante a MC. Diferente de seus colegas na escola, ela decide não seguir as predeterminações sociais acerca de seu futuro profissional, e sim viver de acordo com suas vontades, mesmo que não saiba quais são.

O filme sustenta bem a percepção de Bia sobre a realidade que a cerca. O peso das convenções sociais a entedia e desmotiva. A crítica de Gabriel Martins está justamente nessa sociedade que valoriza apenas o trabalho e não dá espaço para as indecisões. Contudo, por não querer estabelecer uma relação maniqueísta entre a protagonista e essa sociedade, é muito provável que Bia chegue até a causar identificação com o espectador que já passou por essa situação, mas não consiga produzir empatia, visto que aparenta ser totalmente ingrata, sustentando suas ações em um discurso vazio. Nem mesmo a música, apresentada como uma paixão e habilidade, é forte o bastante para apontar um caminho a ser trilhado pela personagem. A sua falta de desejo pelo futuro e seu sentimento de superioridade não a transformam em heroína, mas pelo contrário, revelam sua qualidade egocêntrica e imatura.

 

REGISTRO, de Daniela Santana

(EXPERIMENTAL, 11’, MG, 2017)

Registro é um relato experimental e intimista sobre a relação da protagonista com a câmera. O interessante é que, a princípio, o filme se pronuncia como um ser estranho, sem pretensão de ir além dessa investigação. O real é apresentado, estabelecendo as questões técnicas presentes na realização cinematográfica. Entretanto, no momento em que a cortina se abre e as especificidades do cinema são reveladas, é possível abrir-se para o filme tão intimamente quanto a protagonista. Ao se permitir, o espectador é envolvido pelos mesmos questionamentos do filme, sofrendo uma catarse inesperada.

 

O GOLPE EM 50 CORTES OU A CORTE EM 50 GOLPES, de Lucas Campolina

(DOCUMENTÁRIO, 09’, MG, 2017)

É uma grande surpresa ver a potência da montagem neste filme. A narrativa é construída a partir de conversas grampeadas entre parlamentares e políticos durante o processo do impeachment. Apenas seus nomes aparecem na tela, enquanto ouvem-se os áudios correspondentes às ligações. A montagem entre os áudios é feita por uma relação irônica entre as conversas, proporcionando críticas políticas consistentes.  Alguns dos áudios já são conhecidos, outros são uma descoberta conquistadora, que seria cômica se não fosse trágica para a política brasileira.  

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