Sem Fôlego

Após receber aclamação universal em 2015 por Carol, o diretor Todd Haynes voltou ao Festival de Cannes com seu novo filme Sem Fôlego, um filme com uma proposta desafiadora para Haynes: Metade do filme seria filmado como um “filme mudo” que se passa em 1927 e a outra metade filmada em 1977, ambas as épocas seriam filmadas com suas respectivas linguagens da época. E diferente de todos seus filmes anteriores, os protagonistas seriam duas crianças. O filme foi o primeiro de sua carreira a sair de um festival de mãos vazias, após receber críticas mornas. Porém seria mais um caso de um filme subestimado por sua temática infantil? E o que representa para a filmografia de Haynes?

Primeiramente, Sem Fôlego é um filme dividido em dois personagens em duas épocas diferentes e em dois estilos diferentes, isso provoca uma certa confusão e estranhamento em suas transições. Não que o problema seja da edição, mas em escolher  fazer o filme dessa forma (ou dessas formas), Haynes arrisca demais para conseguir criar uma harmonia perfeita entre as duas estéticas para atingir transições harmoniosas e fluidas.  Mesmo que o resultado dessa escolha não seja algo tão concreto, em termos de consolidação narrativa, é esse atrevimento estético e narrativo que torna o filme audacioso. Em Longe do Paraíso, Haynes ousou reconstruir a estética melodramática de Douglas Sirk, em Não Estou Lá desconstruiu a ideia de biografia e dividiu a vida de Bob Dylan em vários fragmentos representados por vários atores e em Carol, Haynes ousou em re-construir a estética melodramática refinando seus ícones e adicionou seu próprio toque a essa estética, redefinindo-a.  Então, faz sentido um diretor como Todd Haynes, mesmo após aclamação por um dos seus filmes mais ousados, querer levar seus desafios para um outro nível. Mesmo já consagrado em realizar filmes focados em figuras de mulheres adultas contra a sociedade, Haynes muda seu foco de discussão e desafia sua própria narrativa.

Em questões mais profundas sobre desenvolvimento de personagens e de roteiro, o filme vai em direção oposta a Carol. Esse é um filme que o roteiro e as falas estão nas entrelinhas, enquanto que Sem Fôlego é dito tudo para si, talvez nesse ponto seja o maior deslize do filme. Mesmo que ele tenha que fazer uma concessão por causa do público infantil, é surreal pensar que um diretor que sabe tão bem deixar dito pelas expressões e movimentos, tenha que usar escrita literal como muleta narrativa. Nada acontece se os personagens não escrevem e mostram para a tela, até mesmo o clímax emocional do filme é guiado por notas de um bloco. Porém nesse mesmo momento é perceptível a tentativa de Haynes de conseguir trabalhar com esse material, a stop-motion está lá para suprir o que seria algo monótono e básico, conseguindo trazer emoção para a sequência. Ou seja, mesmo com um roteiro que talvez não tenha sido tão bem adaptado aos moldes do talento de Todd Haynes, o diretor tenta ao máximo espremer as palavras e fazer algo acima do esperado (por ele mesmo e por todos).

Sobre outros aspectos do filme não há quase nada para falar, pois o diretor sempre trabalha com a mesma equipe e dificilmente algum deles não está excelente em seu dever. Lachmann deve ser a MVP (Most Valuable Player) da sequência de 1977, transportando cor e saturação para a época, enquanto que Carter Burwell é a MVP em 1927 por conduzir uma narrativa inteiramente pela música. Do elenco, Millicent Simmonds é o grande destaque conseguindo ofuscar a participação especial de Julianne Moore e Michelle Williams, um raro achado de Haynes, pois a atriz assim como a personagem é surda (e parte do elenco de figuração de 1927 também).

Em seu fim, “Sem Fôlego” pode ser visto inicialmente como um Haynes menor, por conta do roteiro, porém é muito mais que isso. É um filme que desafia até mesmo as próprias conveniências do diretor, algo que o desafia em outro nível, Mesmo que não tenha saído tão monumental como seus filmes passados, é um esforço que deve marcar a filmografia do autor e veio em um momento de sua carreira em que ou ele continuava com a estética que o consagrou (mesmo já tendo-a desconstruído e reconstruído) ou engatava em um desafio mais ousado para seu modo de contar histórias e transportar sentimentos. A segunda escolha é a mais característica de um diretor como Haynes.

 

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