Detroit em Rebelião

Antes mesmo de ser lançado nos cinemas americanos Detroid em Rebelião, de Kathryn Bigelow – sucessor dos aclamados e premiados Guerra ao Terror (2008) e A Hora Mais Escura (2012) -, causou polêmica por ser um filme de uma diretora branca contando a história sobre a revolta de Detroit de 1967 e as questões raciais americanas pertinentes até hoje. A questão dessa crítica, em seu início, foi liderada pelo “argumento” que Bigelow não poderia tocar nessa questão por não participar do grupo que sofreu opressão na época, ou seja, por ser branca. Mesmo que a questão racial não seja estrita de um único ponto de vista, os episódios de revolta não podem apenas ser contados por um “lado”, se bem que neste caso não existe um “lado” em que se escolhe, mas que se conta.

Primeiramente gostaria de deixar claro que não acho que uma história contada por alguém que conhece a situação de forma afastada como Bigelow tem o mesmo impacto que alguém que provavelmente tem laços mais fortes com a situação analisada, neste caso, o de tensão racial. Dito isso, não necessariamente apenas um deles podem ter qualidade ou podem ser considerados válidos. O olhar de quem faz parte do outro lado é tão válido quanto o olhar de quem sofreu a repressão, isso ajuda a deixar mais complexa a situação. Nos dias de hoje, há uma necessidade de tratar temas sociais como se só dissesse respeito a você, e nesse caso, se você faz parte da comunidade que sofreu pelo acontecimento. Mesmo assim, o cinema produz obras como Lista de Schindler (1992), de Steven Spielberg, filme que o diretor austríaco Michael Haneke desaprova sobre o Nazismo e ficamos mais longe de uma situação como em “Noite e Neblina” de Resnais que aponta o dedo para o espectador e pergunta “O que acha disso [campos de concentração]? Como você se sente com isso?”. Nos perdemos em narrativas já pré-fabricadas para contar histórias dramáticas de momentos obscuros da história e deixamos nossas mentes tão satisfeitas com um estilo de se lidar com isso que qualquer filme que não seja moldado como de costume é questionável.

Afastando-se do tema de validez do filme e se aproximando mais do tema de qualidade, ou do que se entende por isso, Bigelow tem umas das direções mais tensas dos últimos anos e sabe como ninguém controlar uma cena por mais de 40 minutos. Com cortes rápidos e uma câmera que não para, gera a impressão que ela está capturando o próprio acontecimento, o próprio momento da noite de 1967, apenas no final do filme percebi que o que tinha acabado de ver foi meticulosamente preparado, ensaiado e filmado. A direção de Bigelow tem uma capacidade de imersão  que a destaca entre diretores e diretoras “de ação”. Por outro lado, o roteiro escrito por Mark Boal e colaborador de Bigelow desde Guerra ao Terror, parece que não consegue nem apresentar os personagens propriamente dentro do filme. No início, nos perdemos em núcleos e não conseguimos entender até onde vai cada personagem, eles parecem mais jogados ao espectador do que apresentados por si só. Não sei se Boal por estar tocando em personagens reais e que, como disse no parágrafo anterior, poderiam sofrer um blacklash por sua composição acabou não chegando ao máximo de desenvolvimento, apresentação e acabou não estruturando seus laços no início. Contudo, ainda é interessante perceber como as figuras dos policiais passam longe do típico policial-racista-abusivo-autoritário unidimensional que temos na maioria das séries e filmes recentemente e, mesmo assim, não o exime de ser construído e chamado de racista, mas não de forma unidimensional.

Por fim, o blacklash de Detroit em rebelião não deveria vir por causa de Bigelow ser branca ou não, por estar contando “uma história que não é dela”, mas sim porque o roteiro do filme não tem a mesma qualidade da direção. Boyega serve apenas para representar os “negros pacíficos” e o desfecho é claramente cheio de clichês de personagens que apaga a luta que vimos pelas 2 horas e 20 minutos anteriores. Lançado em 2017, pode ser um filme que sofra bastante em conseguir alguma bilheteria ou indicação em vários prêmios da temporada por conta do Blacklash, mas é um filme válido com pontos positivos. Filmes não deveriam ser julgados por quem conta, mas pela forma que você conta e infelizmente, nesse caso a forma escolhida não foi tão boa, mas por um motivo completamente diferente do qual vai ficar marcado pra história cinematográfica.

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